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RETRATO DO BRASIL: Outros 370 museus correm risco com negligência federal

RETRATO DO BRASIL: Outros 370 museus correm risco com negligência federal

Publicado em 03/09/2018 às 10:48

O diretor de preservação do Museu Nacional do Rio de Janeiro, João Carlos Nara, afirmou aos Jornalistas Livres que o incêndio “é o retrato da situação do país, na qual, infelizmente, há falta de estrutura, falta de financiamento, falta de gestão, falta de tudo”.

Arquiteto, urbanista e historiador, Nara permaneceu acompanhando o controle das chamas no prédio bicentenário do Palácio São Cristovão pelos bombeiros, até que os últimos focos fossem debelados, por volta de duas horas desta segunda-feira. Segundo ele, a situação do maior museu da America Latina e o mais antigo do Brasil, que completou 200 anos em maio, com visita média de cinco a dez mil pessoas, é muito complexa. Os danos são, conforme ele, irreparáveis para o acervo e para as pesquisas, mas ainda é prematuro oferecer um balanço do que restou das chamas. “Teria que esperar acabar o incêndio para fazer uma avaliação”.

Sobre o desespero dos pesquisadores que permaneciam aos prantos diante do patrimônio em chamas, como a vice-diretora do Museu, Cristiana Cerezo, que chegou a atirar-se ao chão, o diretor procurou dar uma palavra de ânimo: “As pessoas estão consternadas, tanta gente que investiu sua vida nesta instituição. Mas temos que pensar que o museu é uma comunidade acadêmica; as pesquisas vão continuar”. Apesar da perda também da reserva técnica, o arqueólogo formado pelo Museu Nacional e doutor em História Comparada pela UFRJ, que mantém e gerencia o acervo com recursos do Ministério da Educação, procurou manter algum otimismo: “Uma parte considerável do acervo não estava no Palácio São Cristóvão, estava no nosso anexo. Claro que tem a perda do palácio em si, mas vamos aguardar as avaliações que serão feitas”.

A situação emergencial dos museus brasileiros foi denunciada há quatro anos, durante a greve dos servidores do Ministério da Cultura, que começou em maio de 2014. Durante a Semana Nacional dos Museus, os profissionais da área lançaram o manifesto Semana Nacional dos Museus Ilegais, expondo a precariedade e os riscos sofridos pelos museus sem alvará de funcionamento. “De lá para cá a situação se agravou muito com o corte de verbas do atual governo”, assinalou André Angulo. Na época, sete dos dez grandes museus do Rio não tinham alvará por problemas no sistema de segurança e prevenção de incêndios. “Hoje essa realidade piorou muito e se estende a todos”.

O diretor do Museu da República, do Rio de Janeiro, Mário Souza Chagas, também fez uma chamada em defesa dos museus em sua página no Facebook, chamando o povo brasileiro a impedir que outros acervos sejam destruídos!”. Estamos de luto! Vamos à luta! Vamos nos articular e fazer, hoje e amanhã mesmo, uma manifestação para denunciar o descaso em relação aos museus brasileiros! Vamos apoiar o que resta do Museu Nacional! Vamos defender a Política Nacional de Museus! Vamos defender o Patrimônio Cultural do Brasil! Vamos lutar para impedir que outros acervos sejam destruídos! Que a tragédia do Museu Nacional sirva, pelo menos, para a proteção do campo museal brasileiro, totalmente fragilizado!

TRAGÉDIA HISTÓRICA E CIENTÍFICA

Iniciado às 19 horas, por razões ainda desconhecidas, o incêndio consumiu os três andares do prédio, na Quinta da Boa Vista, onde se localiza uma coleção de 20 milhões de preciosidades, entre documentos da época do Império; fósseis; artefatos greco-romanos; coleções de minerais e a maior coleção egípcia da América Latina. Uma parte do interior do patrimônio, fundado em 1818 por Dom João VI, chegou a desabar. As labaredas destruíram o esqueleto de dinossauro encontrado em Minas Gerais e o mais antigo fóssil humano descoberto em território brasileiro, o crânio de “Luzia”, de origem africana, cuja descoberta revolucionou os paradigmas sobre a ocupação da América, centrado em fósseis de origem asiática. O acervo era usado pra estudos de geologia, antropologia biológica, paleontologia.
Impotentes diante da tragédia, apesar do esforço e da pontualidade de chegada ao local, os bombeiros não conseguiram controlar o fogo pela falta de pressão de água nos extintores.

 

NOTA DE PESAR DA ANTROPOLOGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE SOBRE O INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL

Duzentos anos de História e produção de conhecimento científico sobre Geologia, Paleontologia, Arqueologia, Botânica, Zoologia, Etnografia, Linguística, Antropologia, dentre outros campos das Ciências Naturais e Sociais, tornaram-se cinzas em decorrência do fogo que consumiu o edifício principal do Museu Nacional, instituição criada por D. João VI em 1818, patrimônio histórico do Brasil. Trata-se de uma tragédia sem proporções para a pesquisa e o desenvolvimento do conhecimento no domínio de muitos ramos das Ciências no Brasil. Em especial, para nossos colegas antropólogos, diante da destruição do acervo físico e documental do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional – PPGAS/MN-UFRJ, que completará 50 anos em 2018, uma referência internacional renomada na formação de recursos humanos de alta qualidade em nossa área. Diante do perverso congelamento dos gastos em educação por 20 anos, hoje assistimos as chamas devorarem uma importante instituição de cultura, ciência e educação que se vê atacada e destruída pelo descaso e pela falta de compromisso com a coisa pública. Com os cortes de efeito paralisante e falsas políticas de austeridade, a Universidade Pública hoje se vê em cinzas. Nós, professores da Antropologia da Universidade Federal Fluminense, nos solidarizamos com nossos colegas professores no Museu Nacional, parceiros de militância acadêmica, com seus pesquisadores, funcionários, estudantes e bolsistas, bem como nos colocamos à disposição para colaborar com a logística, com as ações de memória e com a luta pela dignidade de trabalho.

Fabio Reis Mota
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA-UFF

Daniel Bitter
Coordenador do Curso de Bacharelado em Antropologia – GAO-UFF

Felipe Berocan Veiga
Chefe do Departamento de Antropologia – GAP-UFF

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Extraído de Jornalistas Livres


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